Quando o assunto é infertilidade não há culpados. A maratona do tratamento deve ser compartilhada pelos dois. Afinal, ambos terão de passar por uma série de exames, em alguns casos deverão tomar medicamentos e podem até se submeter a cirurgias. Mas quando o diagnóstico é resultado de algum problema masculino, a resistência ainda é grande. Muitos associam a infertilidade à impotência. “Temos casos de casais em que mulheres já fizeram todos os exames, alguns até invasivos, e o homem se recusa a fazer o primeiro espermograma”, comenta o médico Sandro Esteves, diretor do Androfert (Centro de Referência em Fertilidade Masculina), em Campinas, e especializado em infertilidade masculina e andrologia.
Não raro eles apresentam algum problema de fertilidade. Segundo dados da Organização Mundial de Saúde (OMS), quando um casal não consegue engravidar, 40% é dificuldade da mulher, outros 40%, do homem e o restante, dos dois ou não há causa definida. Isso quer dizer que eles também precisam de atenção se o bebê não vem. “Por isso, prevenir é o melhor remédio. Parar de fumar, evitar a obesidade e usar vitaminas e antioxidantes ajudam a evitar a infertilidade nos homens”, alerta Sandro.
Entre as causas da dificuldade de ter um bebê, no caso deles, estão o número reduzido de espermatozoides ou a pouca mobilidade deles. Alguns homens até produzem os gametas, mas são defeituosos. Outros não produzem nada. Doenças como varicocele, infecções, falhas genéticas e malformações do sistema reprodutor podem ser causas da infertilidade masculina.
Diagnosticado o problema, é hora de tratar. Atualmente, há cirurgias e tratamentos para otimizar os espermatozoides e garantir o sucesso da fertilização in vitro. A chance de gravidez de um casal aumenta de acordo com a qualidade dos gametas usados no processo de fecundação. Por isso, um dos desafios é escolher, no sêmen de baixa qualidade, os melhores espermatozoides, com mais chances de fecundar o óvulo. Uma das maneiras é avaliar o material genético do espermatozoide. “Usamos substâncias corantes que entram na cabeça do gameta e apontam as falhas no material genético dele. Em alguns casos, é possível tratar o problema e, mesmo que vá para a reprodução assistida, o resultado é melhor porque selecionamos os melhores”, explica Sandro Esteves.
Até alguns anos atrás uma das únicas forma de escolher esse espermatozoide era por meio do espermograma, no qual são avaliados o número, o formato e a mobilidade dos gametas masculinos. A tese é a de quanto mais severa a anormalidade morfológica, maior a incidência das alterações genéticas dos espermatozoides. O que se conseguia era ampliá-los em até 400 vezes de tamanho. Os selecionados, eram usados na reprodução assistida.
Agora, a escolha pode ser mais fácil. Uma nova técnica tem sua eficiência testada. Foi batizada com o nome de Injeção Intracitoplasmática de Alta Magnificação ou simplesmente Super ISCI. “Trata-se de um equipamento capaz de ampliar em até 12.500 vezes o tamanho do espermatozoide. Nada mais é que um microscópio grande, com uma lente muito poderosa, e um programa de computador acoplado, que é capaz de ver o núcleo do espermatozoide e enxergar lesões impossíveis de serem vistas normalmente. Com isso, o embriologista escolhe os melhores”, garante o ginecologista Edilberto de Araújo Filho, diretor do Centro de Reprodução Humana de São José do Rio Preto e diretor científico da Sociedade de Ginecologia do Estado de São Paulo (Sogesp).
Mais visíveis e melhor analisados, mais chance de a fertilização dar certo. Mas e quando o homem não produz espermatozoides? Ainda nesses casos há uma esperança. Às vezes, o homem não elimina os gametas pela ejaculação, mas os fabrica em pequenas quantidades. A solução é fazer uma cirurgia para buscá-los dentro do testículo (leia depoimento). “A microdissecção é uma pequena cirurgia. Vamos dentro do testículo, fazemos uma abertura e, com o uso do microscópio, descobrimos se há ou não uma ilha de produção de espermatozoides. Se você encontra algum, tem 40% de chance de engravidar”, explica o médico Sandro Esteves.
DEPOIMENTO
Não havia nenhum espermatozoide em meu exame
“Após seis meses de casado, eu e minha mulher resolvemos ter um bebê. Tentamos um ano pelos métodos naturais e não obtivemos sucesso. Minha esposa procurou o médico e entre os exames pedidos havia um espermograma que eu deveria fazer. A princípio recebi a notícia com uma certa resistência, não queria fazer o exame. Era como se soubesse que havia algum problema.
Quando finalmente fiz o exame, o laboratório me ligou para que eu o repetisse. Estavam intrigados com o número de espermatozoides encontrados. Depois de muita insistência da minha mulher, fiz novamente, mas em outro laboratório. Achei que o resultado era algum erro cometido por eles. Foi quando recebemos a notícia de que não havia nenhum espermatozoide em meu exame, nenhum mesmo. Isso foi uma bomba em meus sonhos. Sempre quis me casar, ter filhos e constituir uma família..
Procuramos uma clínica de fertilização. O médico foi muito realista: teríamos poucas chances de sucesso. Mas fizemos outros exames e, por meio de um deles, encontraram três espermatozoides. Segundo o médico, era como ganhar na loteria. Tínhamos uma esperança: gerar um bebê em vitro, retirando os espermatozoides através da microdissecção testicular. A principio fiquei apavorado, pois sabia que teria que fazer uma microcirurgia no testículo. Me informei na clínica se alguém já tinha feito e me disseram que era um processo muito tranquilo.
Quando chegou o grande dia, em dezembro do ano passado, juro que minha vontade era de fugir da clinica, desistir. Mas minha mulher foi me encorajando e, quando vi, já estava na sala de cirurgia. Fiquei muito emocionado quando recebi a notícia de que a cirurgia tinha sido um sucesso,me sentia bem e sem dor. Após três dias, estava recuperado. Conseguimos quatro embriões, que foram transferidos para minha esposa. Depois de 12 dias, recebemos a notícia de que estávamos ‘grávidos’. Hoje, minha mulher está com sete semanas de gestação e não existem palavras para explicar a nossa felicidade.”
Renato Crescimano tem 30 anos, é professor e casado com Adriane há três anos
Flávia Duarte
Publicação: 28/01/2011 19:22 Atualização: 28/01/2011
http://www.correiobraziliense.com.br/app/noticia/revista/2011/01/28/interna_revista_correio,234837/a-ciencia-a-favor-da-vida.shtml