Fonte: Jornal Correio Popular de Campinas - 29/09/2010 - Caderno Cidades
O advogado Hélio Ferreira Moraes passou sete anos indo de um consultório a outro até encontrar uma técnica capaz de resolver o diagnóstico de azoospermia, a ausência de espermatozoides na ejaculação, que o impedia de ser pai. A peregrinação de Moraes e de outros 37 casais acabou quando ele passou pela microdissecção testicular, uma técnica que localiza os espermatozoides nos testículos, aprimorada em Campinas pelo médico urologista, especialista em reprodução humana Sandro Esteves.
A microdissecção testicular é uma pequena cirurgia que utiliza um microscópio cirúrgico capaz de aumentar, em até 40 vezes o tamanho da estrutura do testículo. O equipamento ajuda a localizar as ilhas produtoras de espermatozoides, que serão retiradas e usadas na fertilização in vitro, em que o óvulo é fertilizado pelo esperma fora do útero da mulher.
A técnica foi desenvolvida inicialmente nos Estados Unidos por Peter Schlegel, mas aprimorada por Esteves, um dos pioneiros na utilização no Brasil. “De forma geral, os resultados são favoráveis. Do grupo de cem homens que já passaram pelo procedimento, conseguimos a extração de espermatozoide em 55% dos casos e temos 37 bebês nascidos. Todos saudáveis”, afirma o especialista.
Os resultados para Moraes foram tão positivos que ele se submeteu ao procedimento por duas vezes. “Em 2005, nasceu o meu primeiro filho, o Rafael, e há seis meses nasceram os gêmeos Daniel e Miguel”, conta Moraes. Na última tentativa, foram usados embriões congelados em nitrogênio líquido na clínica. Segundo ele, os sete anos de luta foram superados. “O processo foi um pouco desgastante. A minha mulher chegou a sofrer dois abortos, mas a nossa persistência e desejo de sermos pais valeu a pena”, diz.
O empresário Carlos Eduardo Pereira lembra que chegou a ouvir de especialistas em reprodução humana que jamais seria pai. “Alguns diziam que as minhas chances eram nulas”, conta. Há sete anos, o empresário passou por cinco tentativas convencionais sem sucesso. Mas, na segunda tentativa utilizando a técnica de microdissecção testicular teve sucesso. “Fomos muito persistentes e o nosso filho é uma grande conquista”, afirma Alessandra, mulher de Pereira. O pequeno Sérgio Pereira Neto tem 6 anos e o casal planeja uma nova tentativa de fertilização. “Estamos estudando essa possibilidade”, diz Alessandra.
Segundo Esteves, a técnica é voltada para pacientes com azoospermia não obstrutiva, em que o paciente produz espermatozoides em quantidade insuficiente para sair na
ejaculação. “Dentre as causas de infertilidade masculina existem algumas que geram uma alteração muito grave na fertilidade, ao ponto do testículo parar de produzir espermatozoides
ou produzir em quantidade insuficiente”, explica.
De acordo com o médico, a azoospermia não obstrutiva atinge 1% dos homens em idade
reprodutiva e pode ter causa genética ou ser resultado de varicocele, de infecções como
axumba ou de tratamentos para câncer com radioterapia ou quimioterapia. Segundo Esteves, o custo da microdissecção testicular varia de R$ 3 mil a R$ 4 mil, contando toda a parte cirúrgica. “O procedimento é feito na própria clínica, de forma ambulatorial. Aplicamos anestesia local e um
sedativo, mas o paciente volta para casa no mesmo dia”, diz. A técnica não gera pós operatório e no terceiro dia o paciente pode voltar à rotina normal.
Agulha no palheiro
O especialista explica que na técnica convencional é feita uma biópsia de material retirado dos testículos para a procura de espermatozoides.
“Nessa técnica, não é possível identificar em que ponto dos testículos está a produção. É como achar uma agulha no palheiro”, afirma. De acordo com o médico, o custo das técnicas convencionais varia de R$ 2 mil a R$ 2,5 mil. O especialista lembra que, apesar do sucesso da extração, as chances de gravidez com esses espermatozoides são menores do que com os espermatozoides presentes na ejaculação.
“O pré requisito para o tratamento de fertilização é ter o espermatozoide, mas o fato é que algumas doenças alteram o potencial fértil deles. Esse e outros fatores reduzem a taxa de sucesso da fertilização para 35% por tentativa”, explica Esteves.
O resultado do trabalho do médico de Campinas será apresentado na 66ª Edição do Congresso Americano de Medicina Reprodutiva, que será realizado de 23 a 27 de outubro na cidade de Denver, nos Estados Unidos.